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Júlia Arruda07/07/2026 21:57
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Na corrida pela Inteligência Artificial, muitas empresas estão esquecendo o básico.

    Tecnologia sem gestão é só ferramenta cara.

    A Inteligência Artificial virou sinônimo de inovação. Toda empresa quer "usar IA", todo profissional de TI é cobrado para trazer IA para dentro dos processos. Mas existe uma pergunta incômoda que poucos fazem antes de sair implementando: a empresa está pronta para isso?

    Em boa parte das organizações, a preparação ainda é insuficiente. E o problema, na maioria das vezes, não é a tecnologia. É a gestão.

    IA potencializa, não substitui gestão

    IA é excelente em automatizar tarefas repetitivas, analisar grandes volumes de dados e acelerar decisões. Só que ela não resolve o que costuma estar na raiz de boa parte dos problemas das empresas: liderança fraca, cultura organizacional desalinhada e falta de planejamento.

    Uma equipe sem processos claros, com pouca comunicação e sem direção estratégica, dificilmente melhora só porque ganhou um chatbot ou um modelo de análise preditiva. Pelo contrário: a IA tende a escalar o que já existe. Se os dados são ruins, a IA erra rápido. Se os processos são confusos, a IA automatiza a confusão. Se a liderança não sabe para onde quer ir, nenhuma ferramenta vai decidir isso por ela.

    Um exemplo comum: empresas que implantam chatbots de atendimento sem antes revisar seus fluxos internos. O resultado costuma ser o oposto do esperado. Em vez de agilizar o suporte, o chatbot repete respostas genéricas, não entende o contexto do cliente e gera mais reclamações do que soluções. O problema não estava na IA em si, mas no processo mal desenhado que ela apenas automatizou.

    Em resumo: tecnologia acelera direção, ela não cria direção. Quem não tem gestão eficiente, corre o risco de apenas acelerar o próprio problema.

    O papel da Governança de TI na competitividade

    É aqui que entra a Governança de TI. Frameworks de governança e gestão de serviços, como COBIT e ITIL, existem para conectar a tecnologia aos objetivos do negócio, criando estrutura, controle e previsibilidade.

    O COBIT é um framework de governança corporativa de TI, mantido pela ISACA, que ajuda a garantir que os investimentos em tecnologia estejam alinhados com a estratégia da empresa, com controle de riscos e retorno mensurável. Já o ITIL é um conjunto de boas práticas para gestão de serviços de TI, mantido atualmente pela AXELOS/PeopleCert, que padroniza processos e melhora a experiência de quem depende deles, sejam clientes internos ou externos.

    Empresas que adotam boas práticas de governança tendem a tomar decisões tecnológicas com mais segurança, reduzir retrabalho, mitigar riscos e criar uma base mais sólida para crescer. É essa base que ajuda a determinar se uma nova tecnologia, como a IA, vai gerar valor real ou se tornará apenas mais um projeto abandonado na gaveta.

    Governança não é burocracia. É o que permite escalar com controle.

    Estamos formando profissionais para usar ferramentas ou para resolver problemas?

    Essa pergunta deveria incomodar mais o mercado de TI. Muitos cursos e treinamentos concentram o ensino em ferramentas: tal linguagem, tal plataforma de nuvem, tal software de análise. O problema é simples: ferramentas mudam o tempo todo. O que é tendência hoje pode estar obsoleto em poucos anos.

    O que tende a não mudar é a capacidade de:

    Pensar de forma analítica;

    Entender o problema antes de sair implementando uma solução;

    Se comunicar com clareza, com público técnico e não técnico;

    Gerenciar prioridades, prazos e pessoas;

    Conectar tecnologia com estratégia de negócio.

    O profissional de TI que se destaca no mercado não é necessariamente o que sabe mais botões e comandos. É o que entende o porquê por trás da tecnologia e consegue traduzir isso em resultado para o negócio. Ferramenta se aprende relativamente rápido. Pensamento crítico e visão estratégica costumam levar mais tempo, prática e maturidade profissional.

    Antes da IA, vem a maturidade digital

    Com tanta pressão para não ficar para trás, muitas empresas estão pulando etapas. Querem IA rodando, mas ainda não resolveram o básico:

    Processos definidos: sem processo claro, a IA tende a automatizar a bagunça já existente.

    Dados de qualidade: dado ruim gera decisão ruim, só que de forma mais rápida.

    Governança: sem estrutura de decisão, a IA corre o risco de virar iniciativa isolada, sem direção clara.

    Segurança da informação: expor dados sensíveis a modelos de IA sem controle é um risco real, não apenas hipotético.

    Cultura organizacional preparada: se o time não confia ou não entende a ferramenta, ela tende a ser ignorada ou usada de forma inadequada.

    Um caso frequente é o de equipes que utilizam IA generativa para gerar relatórios ou análises a partir de bases de dados internas inconsistentes. O resultado são respostas incorretas apresentadas com aparência de precisão, o que pode levar a decisões equivocadas tomadas com falsa sensação de segurança.

    Implementar IA sem essa base é como construir o telhado antes da fundação. Pode até impressionar por um tempo, mas tende a não se sustentar.

    O ponto em comum entre esses temas

    No fundo, todos esses assuntos falam de algo parecido: tecnologia dificilmente substitui fundamentos. Nem os de gestão, nem os de governança, nem os de formação profissional, nem os de estrutura organizacional.

    A IA pode ser uma alavanca poderosa, mas uma alavanca só funciona bem quando existe um ponto de apoio firme. Esse ponto de apoio costuma envolver liderança consistente, processos bem definidos, governança de TI aplicada, dados confiáveis e profissionais preparados para pensar, não apenas para operar ferramentas.

    Antes de perguntar "como usamos IA aqui?", talvez a pergunta mais útil seja: "nossa gestão, nossos processos e nosso time estão prontos para isso?"

    Quem se dispuser a responder essa pergunta com honestidade tende a sair na frente, com ou sem IA.

    REFERÊNCIAS:

    FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Pesquisa de Maturidade Digital nas Empresas Brasileiras.

    TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Referencial Básico de Governança Organizacional.

    AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Guias Orientativos.

    ISACA. COBIT 2019 Framework: Governance and Management Objectives.

    PEOPLECERT. ITIL® 4 Foundation.

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