Microsoft e o misterioso Projeto Midori đ»
- #Inovação
Se vocĂȘ nunca ouviu falar do Projeto Midori, nĂŁo tem problema algum. A Microsoft sempre quis assim, atĂ© o seu amargo final.
Durante dez anos, esse projeto secreto nasceu, cresceu e morreu nas sombras. Sua meta era revolucionĂĄria dentro da empresa: criar um sistema operacional que nĂŁo tivesse qualquer ligação com a famĂlia Windows.
O que se sabe é que ele deveria ser uma implementação do Singularity, um outro sistema operacional experimental da Microsoft onde o kernel, as aplicaçÔes e os drivers de dispositivo seriam todos criados com managed code. Singularity surgiu nos laboratórios do Microsoft Research em 2003 e foi estudado até 2010, quando foi abandonado totalmente.
O time montado para criar o Midori deveria pegar os conceitos do Singularity e criar um sistema operacional novo, do zero, inclusive aplicaçÔes. A Microsoft na Ă©poca tinha um forte interesse em desenvolver um caminho evolutivo para fora do Windows nos Ășltimos anos da era Ballmer. No auge do projeto, ele chegou a reunir 100 profissionais. O futuro da Microsoft parecia estar sendo fabricado ali.
David Tarditi, um dos engenheiros envolvidos em seu desenvolvimento, explicou o Midori em seu LinkedIn:
âEu comandava a equipe de ferramentas para o projeto Midori, assumindo o time de 4 pessoas atĂ© um bocado de pessoas. Midori era um sistema operacional escrito inteiramente em C# que atingia uma performance comparĂĄvel com a de sistemas operacionais de produção, menos os problemas de segurança e confiabilidade encontrados em sistemas operacionais escritos em C ou C++. NĂłs continuamos desenvolvendo o compilador Bartok utilizado no projeto Singularity de forma que ele poderia ser utilizado para escrever softwares de sistema com qualidade de produção em C#.â
Em 2008, parte do véu que cobria o projeto foi revelado. A jornalista Mary Jo Foley, especialista em tecnologia, conseguiu acesso aos bastidores da criação do Midori e publicou sobre o projeto em seu livro Microsoft 2.0:
âExiste um projeto em desenvolvimento na Microsoft que vem sido mantido a boca miĂșda. O projeto, codinome âMidoriâ, Ă© uma nova plataforma de sistema operacional da Microsoft que supostamente substituirĂĄ o Windows. Midori estĂĄ em incubação, o que significa que estĂĄ um pouco mais prĂłximo do mercado do que a maioria dos projetos da Microsoft Research, mas nĂŁo ainda perto o bastante para estar disponĂvel em qualquer forma de versĂŁo prĂ©via.â
âO que tambĂ©m Ă© interessante sobre o Midori Ă© quem estĂĄ comandando o projeto. Aquele que uma vez jĂĄ foi apontado como sucessor de Gates, Eric Rudder, estĂĄ encabeçando os esforços. Midori estĂĄ sendo incubado sob a asa do Chefe de Pesquisa e EstratĂ©gia, Craig Mundie. âTodos os sob seu comando (de Rudder no Midori) sĂŁo veteranos de muitos anos, tem um tĂtulo super pomposo, e estĂŁo voltando para suas origens e escrevendo cĂłdigo como eles provavelmente faziam nos velhos temposâ, um informante na Microsoft me contou.â
Entre esse grupo de notĂĄveis, descobriu-se a presença de nomes como Leif Kornstaedt, um dos maiores especialistas de CLR dentro da Microsoft; Joe Duffy, autor do livro Concurrent Programming on Windows; Tanj Bennett, elo de ligação com o Microsoft Research e entusiasta de âSistemas Operacionais no Futuroâ; Chris Brumme, arquiteto de software tambĂ©m egresso do time de CLR; e Pavel Curtis, com 13 anos de experiĂȘncia vindo dos laboratĂłrios da Xerox. TambĂ©m da Xerox, Daniel Lehenbauer descreveu seu trabalho no tal projeto misterioso como âo mais empolgante e revolucionĂĄrio trabalho que jĂĄ aconteceu na indĂșstria desde o PARCâ, em referĂȘncia ao mĂtico Palo Alto Research Center, da Xerox.
Por volta de 2012, tudo parecia estar indo de vento em popa. Resultados secundĂĄrios da pesquisa apareciam em convençÔes e artigos cientĂficos, sempre mencionando o Midori de forma vaga. IndĂcios apontavam para aplicaçÔes rodando em modo sandbox, um novo navegador incrivelmente rĂĄpido, performance sem igual.
ApĂłs um novo perĂodo de silĂȘncio, a Microsoft mudou. E começou a dança das cadeiras em sua infraestrutura.
No começo de 2015, Eric Rudder, aquele mesmo que uma vez foi apontado como sucessor de Bill Gates, saiu da empresa. Outra figuras-chave do projeto Midori jĂĄ haviam saĂdo tambĂ©m. NĂŁo Ă© difĂcil entender o motivo: Windows 10. Depois de quase dez anos de desenvolvimento, era claro que Midori nĂŁo seria o sucessor do Windows porque a Microsoft nĂŁo tinha mais qualquer interesse em lançar outro sistema operacional fixo. A estratĂ©gia passou a ser oferecer serviço: o prĂłprio sistema operacional se transformara em um serviço, uma plataforma unificada para diversos dispositivos, atualizĂĄvel, modular, perpĂ©tua.
Comenta-se que a Microsoft aproveitou parte do que foi desenvolvido no projeto em partes do Windows 10. Nada se perde, afinal.
Para quem tem interesse nos aspectos tĂ©cnicos do projeto, Joe Duffy publicou uma sĂ©rie de artigos em seu blog sobre seu trabalho dentro do Midori. Sobre o trĂĄgico destino do que poderia ter sido o sistema operacional que vocĂȘ utiliza hoje, Duffy escreveu:
âEu serei o primeiro a admitir que nenhum de nĂłs sabia no que o Midori ia dar. Esse Ă© o caso frequente com pesquisa. Meu maior arrependimento Ă© que nĂłs abrimos o cĂłdigo desde o inĂcio, onde a meritocracia da internet poderia julgar seus pedaços apropriadamente. Assim como em todas as grandes corporaçÔes, decisĂ”es sobre o destino da tecnologia central do Midori nĂŁo foram totalmente conduzidas tecnicamente e, infelizmente, nem mesmo inteiramente conduzidas por negĂłcios.â
Fonte:
https://www.codigofonte.com.br/artigos/microsoft-e-o-misterioso-projeto-midori




