Eu não estava mudando de caminho. Estava construindo repertório
Como diferentes experiências me ajudaram a reconhecer na mobilidade urbana um campo de propósito, tecnologia e transformação social
Durante muito tempo, achei que estava mudando de caminho. Passei pela tecnologia, pelo marketing, pelo empreendedorismo e por novos projetos. Em alguns momentos, tive a sensação de estar me afastando do que havia construído anteriormente. Como se cada nova experiência representasse uma mudança de direção ou o início de uma trajetória completamente diferente.
Hoje percebo que não era uma mudança de direção.
Era a construção do repertório que eu precisava para reconhecer, com clareza, o propósito que sempre esteve ali: usar a tecnologia para melhorar a vida das pessoas.
Os caminhos que pareciam desvios
Uma trajetória profissional nem sempre acontece em linha reta. Algumas experiências nos levam para ambientes inesperados, exigem novas habilidades e mudam a maneira como enxergamos o trabalho e também a nós mesmos.
- A tecnologia me ensinou a compreender sistemas, processos e integrações. Mostrou que uma solução só funciona verdadeiramente quando consegue responder a uma necessidade real.
- O marketing ampliou meu olhar sobre comportamento, comunicação e experiência. Ensinou que não basta desenvolver uma boa solução: é preciso compreender as pessoas que irão utilizá-la e comunicar seu valor de maneira clara.
- O empreendedorismo trouxe autonomia, flexibilidade e capacidade de adaptação. Fez com que eu aprendesse a tomar decisões, lidar com incertezas, enxergar oportunidades e assumir responsabilidade pelos resultados.
- A análise de negócios, por sua vez, tornou-se o ponto de encontro dessas experiências. É onde posso ouvir necessidades, compreender contextos, organizar informações e aproximar pessoas, processos e tecnologia.
Hoje entendo que não estava acumulando experiências desconectadas. Estava reunindo diferentes formas de observar e resolver problemas.
Não foram desvios. Foram passagens.
Mobilidade é tudo o que permite que a vida aconteça
Foi a partir dessa percepção que a mobilidade urbana começou a ganhar um significado ainda maior para mim.
Quando falamos em mobilidade, é comum pensarmos imediatamente em ônibus, trens, metrôs, estações, ruas e veículos. Tudo isso faz parte, mas mobilidade é muito mais ampla.
Ela está nos caminhos que percorremos e nas possibilidades que esses caminhos criam.
Está no fluxo de passageiros dentro de uma estação, mas também no fluxo de informações entre sistemas. Está na circulação de ônibus pela cidade, mas também na circulação de conhecimentos entre equipes. Está na tecnologia utilizada para validar um acesso, no dado que precisa chegar ao lugar certo e na pessoa que depende daquele serviço para continuar sua jornada.
Mobilidade é passagem. É conexão. É acesso.
É o que permite que alguém chegue ao trabalho, frequente uma escola, faça uma consulta médica, encontre outras pessoas, conheça novos lugares ou simplesmente participe da vida da cidade.
Falar de mobilidade é falar sobre tudo o que precisa se mover para que a vida aconteça.
São Paulo como lugar de aprendizado
Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de acompanhar de perto parte da evolução da mobilidade em São Paulo.
Participei de projetos relacionados à SPTrans e ao Metrô de São Paulo, envolvendo sistemas de bilhetagem, validadores eletrônicos, controle de acesso, fluxo de passageiros, levantamento de requisitos, testes, homologação, documentação e implantação de soluções.
Essas experiências me permitiram enxergar a mobilidade para além da superfície.
Por trás de um bloqueio eletrônico existe uma combinação de equipamentos, sistemas, regras de negócio e processos operacionais. Por trás de um validador existe uma troca constante de dados. Por trás de cada requisito existe uma necessidade que precisa ser compreendida, traduzida e transformada em uma solução.
Mas, acima de toda essa estrutura, existe uma pessoa tentando chegar a algum lugar.
Acompanhar esses projetos me mostrou como a tecnologia pode contribuir para tornar o transporte público mais confiável, integrado, seguro e acessível. Também me ensinou que nenhum sistema de mobilidade funciona isoladamente. Ele depende da integração entre pessoas, áreas técnicas, operadores, empresas, órgãos públicos e usuários.
São Paulo se tornou, para mim, uma grande fonte de aprendizado. Uma cidade em movimento constante, na qual milhões de trajetórias se cruzam todos os dias.
Uma viagem construída pelos passos de outras pessoas
Com o tempo, comecei a ampliar meu olhar para além da cidade em que vivo.
Em certo sentido, viajei pelo Japão por meio dos passos, dos olhos e dos sentimentos de outras pessoas. Acompanhei relatos, observei experiências e procurei compreender como outra sociedade organiza seus espaços, seus deslocamentos e sua relação com o coletivo.
Foi uma forma diferente de viajar: não apenas por imagens ou informações, mas tentando enxergar os caminhos a partir da experiência de quem os percorreu.
Essa observação reforçou algo em que acredito: compreender como uma sociedade se move é também compreender como ela vive.
A maneira como uma cidade organiza seus fluxos diz muito sobre suas prioridades. Revela como ela trata o tempo, o espaço público, a acessibilidade, a segurança, a convivência e o direito das pessoas de chegar aos lugares de que precisam.
Depois de acompanhar transformações em São Paulo, quero observar cada vez mais como outras cidades e países estão pensando o futuro da mobilidade. Quero conhecer modelos, tecnologias e experiências, mas também compreender os contextos humanos e culturais que existem por trás deles.
Um retorno que não começa do zero
Desde abril, estou de volta ao ambiente corporativo, atuando como Analista de Negócios no projeto Fácil Alagoas, em uma parceria entre SIMOHU e Onebox.
Esse retorno tem um significado especial.
Não estou voltando ao mesmo lugar de onde saí. Estou chegando a este novo momento com uma visão que antes ainda não possuía.
Trago comigo a experiência da tecnologia, a sensibilidade desenvolvida na comunicação, a autonomia construída no empreendedorismo e a capacidade de conectar necessidades e soluções por meio da análise de negócios.
Minha atuação atual representa a convergência desses conhecimentos e, ao mesmo tempo, um reencontro com a mobilidade urbana.
A Onebox também desenvolve soluções para a área da saúde, outro campo que desperta meu interesse. À primeira vista, saúde e mobilidade podem parecer universos diferentes. No entanto, ambas estão ligadas a uma questão fundamental: o acesso.
Tecnologias aplicadas à mobilidade ajudam pessoas a acessar cidades, oportunidades e serviços. Tecnologias aplicadas à saúde podem facilitar o acesso ao atendimento, à identificação, aos benefícios e ao cuidado.
Nos dois casos, a tecnologia não deve ser o ponto final. Ela é o caminho utilizado para melhorar experiências e cuidar das pessoas.
A direção que escolhi aprofundar
Hoje, estou direcionando minha atuação para a mobilidade urbana, especialmente para a tecnologia aplicada ao transporte público.
Não considero esse movimento uma ruptura com as experiências anteriores. Pelo contrário: é justamente a soma delas que me permite fazer essa escolha com mais consciência.
Quero consolidar os conhecimentos adquiridos, aprofundar minha compreensão sobre o setor e acompanhar a evolução da mobilidade no Brasil e no mundo.
Quero observar como diferentes lugares enfrentam desafios relacionados à inclusão, ao crescimento das cidades, à sustentabilidade, à integração dos transportes e ao uso inteligente de dados. Quero entender como novas tecnologias podem melhorar os sistemas sem perder de vista aquilo que realmente importa: as pessoas.
Porque onde existem pessoas, existem movimentos, encontros e a necessidade de conexão.
A mobilidade está em todos os lugares. Nas grandes metrópoles, nas pequenas cidades, nas estradas, nos sistemas digitais e nas redes de conhecimento. E, pensando no futuro, talvez um dia até em Marte.
Algumas direções não se revelam no início da trajetória. Elas se tornam visíveis quando acumulamos experiências suficientes para reconhecer o sentido que sempre esteve presente.
A jornada continua. Só que, desta vez, com a certeza de que encontrei a direção certa.



