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John Ligeiro
John Ligeiro28/06/2026 17:50
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Sobrevivendo à Onda: O que a Inteligência Artificial Muda e o que Ela Nunca vai Mudar

    Por mais que eu tente me lembrar de um momento em que a tecnologia não estava transformando alguma coisa ao meu redor, não consigo.

    Uma ruptura diferente de tudo que veio antes

    Deixa eu ser honesto: quando o ChatGPT apareceu, minha primeira reação foi a mesma de muita gente: achei superestimado. Brinquei um pouco, pedi umas coisas, ele me deu respostas erradas com uma confiança absurda e eu fechei a aba pensando: "tá, mais hype".

    Alguns meses depois eu abri de novo. E aí foi diferente.

    Não foi uma atualização de sistema. Não foi uma ferramenta nova no ecossistema. Foi algo que eu não tinha como nomear ainda: uma coisa que gerava conteúdo original (texto, código, imagem, música) com uma qualidade que não fazia sentido vir de uma máquina. O ChatGPT, o Claude, o Midjourney, o Copilot e mais uma dúzia de ferramentas que apareceram quase ao mesmo tempo mudaram a forma como a gente escreve, desenha, programa, pesquisa e até manda mensagem.

    O impacto veio rápido demais pra processar. Demissões em massa nas big techs. Banco de imagens em colapso. Redações enxugadas. Agências de publicidade reformulando equipes inteiras. Ao mesmo tempo, novos cargos como engenheiro de prompt, gestor de IA e especialista em automação generativa apareceram do nada. O mercado não parou. Ele embaralhou tudo e redistribuiu as cartas sem perguntar se você queria jogar outra mão.

    Os Inempregáveis e a Nova Desigualdade

    Existe uma palavra que ainda não entrou nos dicionários mainstream, mas que já circula nos debates de tecnologia e economia: inempregável. Não é quem está desempregado por falta de vagas. É quem se tornou estruturalmente incompatível com o mercado que existe e que provavelmente não vai mais voltar.

    O que mais me incomoda nessa história não é o desemprego em si. É a assimetria. Quem souber trabalhar com essas ferramentas tem um multiplicador de produtividade ridículo. Quem não souber, por falta de acesso, de tempo, ou de educação, vai ficando pra trás num ritmo impossível de recuperar.

    E o detalhe cruel é que dessa vez não são só os trabalhos braçais ou repetitivos que estão no olho do furacão. São redatores, designers, programadores, analistas, profissionais com diploma, com portfólio e com anos de experiência. A IA generativa não foi atrás dos empregos mais simples primeiro. Ela foi direto nos que exigem linguagem, criatividade e raciocínio.

    A desigualdade que se forma aqui não é só econômica. É de conhecimento, de acesso e de velocidade de adaptação. E isso é assustador de um jeito que não está aparecendo nos noticiários com a devida seriedade. É um colapso iminente.

    Já Vivemos Isso Antes - Só Esquecemos

    Entre 1760 e 1840, a Inglaterra passou por uma transformação que destruiu profissões inteiras e criou outras do zero. Tecelões que trabalhavam em casa há gerações viram seus ofícios tornarem-se obsoletos quando os teares mecânicos chegaram às fábricas. O movimento Luddita (que hoje virou sinônimo de "pessoa que tem medo de tecnologia") nasceu não de ignorância, mas de desespero genuíno: pessoas que sabiam muito bem o que estava acontecendo e não tinham para onde ir.

    O que a história nos ensina, com uma crueldade fria, é que a transição foi real e dolorosa para quem a viveu, mesmo que, no longo prazo, a industrialização tenha aumentado o padrão de vida geral. O problema é que o "longo prazo" da história é feito de gerações reais, de famílias reais que sobrevivem ou não à travessia.

    A analogia com o que vivemos hoje é perturbadoramente precisa. A velocidade mudou: o que levou oitenta anos na Revolução Industrial está acontecendo em menos de uma década com a IA. As habilidades sendo substituídas mudaram, são cognitivas e não apenas físicas. Mas a estrutura do fenômeno é a mesma: uma tecnologia de propósito geral reorganiza quem produz o quê, em quanto tempo e a que custo (com o agravamento da concentração de renda). E quem não consegue se mover junto paga o preço. Eu sei bem o que isso significa na prática.

    A Minha História com a Mudança

    Comecei a trabalhar na TI com 14 anos. Carteira assinada, tudo certinho, por meio de um programa social da Fundação Educacional Cidade dos Meninos, uma instituição que atendia crianças em situação de vulnerabilidade. O trabalho era manutenção de computadores. O conhecimento vinha de profissionais mais velhos, de cursos presenciais com muita hora de apostila e de tutoriais que eu baixava via torrent. Fora isso, tinha uma fila infinita de computadores e impressoras de vizinhos, familiares e amigos que eu consertava nos fins de semana, mais por gosto do que por dinheiro.

    Naquela época, saber formatar uma máquina, instalar um driver que teimava em não funcionar, resolver aquele conflito misterioso de hardware que travava tudo era um diferencial de verdade. Não era qualquer um que sabia. Eu sabia. E tinha demanda.

    Até que chegou o YouTube e, da noite pro dia, qualquer pessoa com uma conexão razoável resolvia o mesmo problema em vinte minutos de tutorial. A minha demanda caiu. Não porque eu tivesse ficado pior (tinha ficado melhor, aliá)s. Mas o conhecimento que eu carregava deixou de ser escasso.

    O meu movimento seguinte foi meio por acidente. As redes sociais e os jogos online estavam explodindo, os computadores ainda eram caros, e eu enxerguei uma brecha. Com dois amigos, montamos uma lan house com quinze máquinas. Das 8h às 22h, fila de espera. Parecia que tínhamos achado o filão de ouro. E aí a internet banda-larga ficou barata, os computadores ficaram acessíveis, e a lan house foi perdendo clientes na mesma velocidade que uma locadora de VHS nos anos 2000.

    Fui trabalhar numa agência como designer gráfico. O trabalho criativo sempre me atraiu, e meu diferencial era real: layouts, diagramações, domínio técnico de CorelDraw, Photoshop, Illustrator. Aí chegou o Canva. E o design profissional ficou acessível pra qualquer pessoa com um mouse e uma hora livre. Novamente não era culpa de ninguém. O mercado só tinha mudado de novo.

    Entrei pra faculdade (Engenharia Ambiental). No segundo período, com mais três colegas, abrimos uma empresa júnior de consultoria ambiental. Licenciamentos, projetos em AutoCAD, elaboração de mapas de propriedades rurais com GPS Garmin. Passamos horas em filas de órgãos públicos e escrevendo relatórios técnicos, fazendo medições em campo. Por um bom tempo, funcionou. Então chegaram as ferramentas BIM, os drones baratearam absurdamente e os licenciamentos que antes exigiam presença física passaram a ser feitos pela internet, o que significava que um escritório de qualquer canto do país podia fazer o mesmo serviço, geralmente mais barato. A demanda evaporou de novo.

    Voltei pra programação, que já tinha alguma experiência administrando servidores na época da lan house (servidores privados de Tíbia, Ragnarok e Lineage II) e estudado na faculdade de Engenharia Mecânica, com automação e robótica. Estudei linguagens, frameworks, passei muitas horas nisso, fui ficando cada vez melhor, eu sentia que eu tinha nascido pra isso (e ainda sinto!!). Me tornei relevante de verdade. Comecei a trabalhar como programador. E foi então que as LLMs explodiram. As demissões em massa vieram junto, e aquela sensação familiar voltou: o chão se movendo de novo. Fora da empresa, fiz landing pages, automações mais simples e tentei me reposicionar no mercado local. Mas chegaram os sistemas low-code, o no-code, o vibe coding, e aqui estou eu, escrevendo esse artigo enquanto tento entender o meu próximo movimento.

    Se você tiver contando: são umas cinco ou seis vezes desde os meus quatorze anos. E olha, eu ainda não terminei.

    Dar socos nas ondas não adianta nada

    Demorei um tempo pra entender isso de verdade. Não intelectualmente, mas entender de verdade, no corpo, na reação automática quando o mercado muda. Isso levou tempo e levou erro.

    A resistência à mudança tecnológica é uma reação natural e completamente inútil. Ficar com raiva, minimizar, ignorar, torcer pra ferramenta nova não pegar, nada disso muda absolutamente nada. A mudança não pede licença, não aceita negociação e não tem o menor interesse na sua opinião sobre ela.

    Resistir à maré quando você tá se afogando é gastar energia que você vai precisar pra nadar.

    A pergunta que funciona NÃO É "como faço pra essa mudança não acontecer?" A pergunta que funciona é "como chego ao outro lado?". Resiliência não é aceitar passivamente qualquer coisa. É a capacidade de absorver o impacto sem quebrar e continuar em movimento mesmo quando o terreno sumiu debaixo dos seus pés. Na TI especificamente, isso não é um diferencial, é um pré-requisito.

    Os Fundamentos: O que a Maré Nunca Leva

    No início da minha migração para a programação, a minha maior dificuldade não era aprender a codificar. Era suportar a ansiedade de olhar para um horizonte infinito de linguagens, frameworks, atualizações e paradigmas, com a permanente sensação de que era humanamente impossível acompanhar tudo. Que qualquer escolha era a errada. Que eu nunca estaria suficientemente atualizado.

    A virada veio de um livro fino, discreto e frequentemente ignorado: O Codificador Limpo, de Robert C. Martin. Não é um livro sobre linguagem nenhuma. É sobre o ofício de programar e a sua tese central me deu um estalo que ainda ressoa: desde os cartões perfurados, os problemas da engenharia de software são os mesmos.

    As ferramentas mudam. Os objetivos do trabalho são os mesmos. As pessoas e as relações humanas por trás de qualquer sistema são as mesmas. E a base de qualquer sistema, independentemente de linguagem, framework ou se foi construído à mão em um ano ou gerado com IA em um mês — é sempre a mesma: lemos dados, transformamos esses dados, às vezes os salvamos, e os exibimos mediante consulta.

    Isso é tudo. Em qualquer linguagem. Em qualquer paradigma. Com ou sem IA.

    Pense em um pintor que domina a técnica a óleo. Se ele precisar pintar em aquarela, vai ter uma dificuldade inicial com o comportamento da tinta nova. Mas ele sabe cores, proporções, composição, perspectiva. Seja com giz de cera ou com Adobe Illustrator, ele vai conseguir pintar porque o fundamento está dentro dele, não na ferramenta. Um violonista que executa peças em múltiplos tons conhece as notas, os intervalos, os campos harmônicos e as progressões. Se trocar o violão por um piano, o instrumento mudou, a musicalidade não.

    Com programação é exatamente isso. Se você sabe estruturar, ordenar e filtrar dados, você faz em qualquer linguagem. Se você aprendia o que não sabia lendo toneladas de documentação e vasculhando o Stack Overflow, que maravilha que agora você resolve com um prompt bem feito. A ferramenta mudou. O raciocínio que você aplica continua sendo o seu.

    O programador vai morrer? Não, mas vai ter que crescer

    Ouço essa afirmação com uma regularidade irritante: "com IA, qualquer pessoa pode programar, o programador ficou obsoleto."

    Tudo bem, vamos pensar juntos. É verdade que as LLMs hoje entregam código de qualidade de verdade. Não aquele código alucinado e bugado dos primeiros meses, ela entrega código funcional, estruturado, testável. E isso acelera o desenvolvimento de forma que quem viveu o antes e o depois sente na pele.

    Mas um sistema em produção não é um arquivo de código estático. É um organismo vivo. Sistemas usados por pessoas reais acumulam dívida técnica. Recebem requisitos que mudam porque o negócio mudou. Descobrem bugs que ninguém havia previsto porque ninguém previu como aquele usuário específico ia usar aquela função específica. Crescem além do planejamento original. Precisam se integrar com outras coisas que também estão em movimento.

    Um sistema que pára de receber atenção qualificada não fica em pé, ele apodrece até parar de funcionar. Um sistema totalmente estático só existiria num mundo totalmente estático. E se tem uma coisa que a gente sabe, com certeza, é que esse mundo não existe.

    O que a IA muda não é a necessidade de quem entende sistemas. É o que essa pessoa faz com o tempo que a IA lhe devolve. A IA escreve o boilerplate, sugere a estrutura, resolve o bug óbvio, gera a documentação. O programador projeta, decide, questiona os requisitos, mantém, evolui, entende o problema antes de pensar na solução. A relação mudou de executor para arquiteto. Isso não é o fim da profissão. É uma elevação do que se espera dela.

    E honestamente? Pra quem gosta de verdade do que faz, isso é uma boa notícia.

    Mantenha-se Humano

    Se há uma coisa que me preocupa mais do que o impacto da IA no mercado de trabalho, não é econômica. É humana.

    Nas experiências de trabalho recentes, o que mais me chamou atenção foi ver pessoas perdendo a capacidade básica de escrita, usando o “GPT” para redigir qualquer coisa, desde um e-mail simples até uma mensagem de WhatsApp. A internet está saturada de texto gerado por LLM: correto, coerente, vazio. Palavras sem experiência por trás.

    E aqui está o paradoxo fascinante e assustador: quanto mais conteúdo gerado existe, mais valioso se torna o conteúdo verdadeiramente humano. Como bem coloca Iglá Generoso em sua mentoria "Como Liderar em um Mundo Resetado pela IA": comparar material artesanal com material gerado é o equivalente a comparar comida de verdade com fast-food. Os dois alimentam. Só um nutre.

    Pode-se gerar código, música, pinturas e livros com IA. Mas uma LLM não carrega a condição humana. Não passou por nada. Não perdeu ninguém. Não errou e recomeçou. Não sentiu o gosto amargo de ver um negócio que construiu com amigos fechar as portas porque o mercado mudou. O material gerado nunca vai se equiparar ao material artesanal não por uma questão de qualidade técnica, mas por uma questão de verdade.

    A nossa humanidade não é um bug a ser corrigido. É o único ativo que nenhuma IA consegue replicar de verdade.

    Então: use as ferramentas. Todas. Use bem. Use com inteligência. Mas não abra mão do seu pensamento crítico, da sua intuição construída por anos de experiência, da sua capacidade de se expressar com as próprias palavras. Não deixe a ansiedade de estar sempre atualizado apagar a pessoa que você construiu ao longo do caminho.

    Conclusão: O Polegar Opositor

    Existe uma característica anatômica que nos tornou humanos da forma que somos: o polegar opositor. Ele nos permitiu segurar ferramentas. E com ferramentas, construímos tudo o mais.

    Ao longo da história, cada vez que apareceu uma ferramenta nova: o tear mecânico, a eletricidade, o computador pessoal, a internet - a humanidade se perguntou se havia cruzado um ponto sem retorno. E sim, havia. As coisas nunca voltaram a ser como antes. Mas a humanidade seguiu em frente, carregando o que era essencial e deixando para trás o que havia se tornado supérfluo.

    Estamos cruzando mais um desses pontos agora.

    A mudança é inevitável. A ferramenta vai mudar e sempre mudou. O que permanece é o fundamento do seu trabalho, a qualidade do seu raciocínio, a profundidade das suas relações e a sua capacidade de se levantar depois que a maré baixa e o cenário está diferente do que você havia planejado.

    Orgulhe-se do seu polegar opositor e siga em frente.

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    Este artigo foi escrito - com auxílio de inteligência artificial - por um profissional de tecnologia que começou consertando computadores de vizinhos aos 14 anos e ainda está aqui, tentando entender e sobreviver a cada nova onda.

    Conheça o autor: John Pierre Mendes Ligeiro | LinkedIn

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