Entre a promessa social e o lucro invisível da IA
- #AI Agents
- #IA Generativa
- #Inteligência Artificial (IA)
*Lenon de Paula é jornalista e especialista em Ciências de Dados e IA e em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Contato: lenondpaula@gmail.com
**Coluna publicada na edição impressa do jornal Diário de Santa Maria do dia 9 de março de 2026.
Eis que começamos nosso 2026 com uma sensação curiosa de “ressaca digital”. Considerando as tendências e promessas mirabolantes sobre como os algoritmos resolveriam todos os problemas humanos, o cenário atual nos obriga a encarar a realidade sem filtros. Para isso, trago dois contextos distintos para refletirmos sobre o futuro: de um lado, a esperança de um Brasil que busca protagonismo ético; de outro, o ceticismo de um mercado financeiro que ainda não viu a cor do dinheiro investido.
Na segunda quinzena de fevereiro, Nova Delhi se tornou o centro gravitacional dessa discussão durante o AI Impact Summit. Foi lá que o Brasil, representado pelo Ministério da Saúde, tentou cravar uma bandeira importante. Ao apresentar o painel “IA para o Bem de Todos”, o país sinalizou que não quer ser apenas um consumidor passivo de caixas pretas tecnológicas vindas do Vale do Silício. A aposta brasileira é estratégica: usar a inteligência artificial para otimizar o sistema público de saúde, onde a triagem de dados e a precisão diagnóstica podem, literalmente, salvar vidas. É um passo maduro. Em vez de discutirmos se as máquinas vão dominar o mundo, estamos focados em como elas podem ajudar a reduzir filas no SUS.
(Abro um parênteses para salientar que o Brasil é um dos países pioneiros e um dos mais ativos na busca pela regulamentação da IA no mundo, sendo o único país de língua portuguesa com regulação específica de IA no Judiciário).
Agora, te questiono: o impacto econômico da IA é real? Um relatório recente do banco Goldman Sachs jogou luz sobre uma estatística considerada desconfortável: o investimento bilionário em IA teve impacto praticamente zero no crescimento do PIB dos Estados Unidos em 2025. Para quem esperava uma revolução imediata na produtividade global, o dado é um balde de água fria. As conclusões apontam que, embora a tecnologia seja capaz de escrever poemas ou gerar imagens em segundos, transformar essa capacidade de processamento em engrenagem econômica real é um desafio muito mais complexo e lento do que se esperava.
Em vez de discutirmos se as máquinas vão dominar o mundo, estamos focados em como elas podem ajudar a reduzir filas no SUS.
Essa dicotomia define o nosso tempo. A inteligência artificial está em uma espécie de “divã”. Se por um lado, ela brilha como ferramenta de transformação social e científica — onde o Brasil parece ter encontrado um nicho relevante ao focar na saúde pública —, por outro, ela ainda precisa provar sua sustentabilidade financeira. O perigo mora na euforia desmedida: tratar a inovação como um milagre econômico de curto prazo é o caminho mais rápido para a frustração.
Para você, leitor, a lição que pode ficar é a de que a tecnologia, por mais avançada que seja, ainda depende da curadoria humana e de propósitos claros. O sucesso do Brasil na Índia mostra que temos inteligência (humana) para liderar debates globais. Já os números do mercado americano nos lembram que a inovação tecnológica não tem solução mágica para a economia. O futuro da IA não será decidido pela rapidez do processamento, mas pela nossa capacidade de torná-la útil, ética e, finalmente, palpável no cotidiano das pessoas. Agora, se o pleno êxito da IA depende, majoritariamente, do uso que a humanidade fizer dela, a pergunta que fica é: a humanidade confia nessa tecnologia ou a vê como ameaça?


