Manias linguísticas do ChatGPT no “modo inspirado”
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Introdução
Quem trabalha com texto já se deparou com um tipo específico de escrita que tenta parecer profunda o tempo todo. Metáforas repetidas, paradoxos forçados e conclusões moralizantes. Esse padrão aparece com frequência em textos gerados por inteligência artificial, especialmente no chamado modo inspirado.
A seguir, estão algumas das manias linguísticas mais recorrentes.
O culto ao silêncio e ao ruído
O silêncio aparece como amuleto de introspecção: silêncio, silencioso, silenciar. Ele “fala”, “grita” e “diz mais que palavras”. O problema não é o uso pontual, mas o excesso, que torna o recurso cansativo.
Logo surge o antagonista: o ruído. Não como barulho real, mas como metáfora para tudo o que não importa. O que sobra vira ruído. O que não cabe na resposta é descartado.
Quando a metáfora funciona — e quando não
A comparação com o poema Profundamente, de Manuel Bandeira, mostra a diferença. No poema, silêncio e ruído fazem sentido, estão integrados ao contexto e à emoção. Não são enfeite. Não são forçados.
No texto artificial, muitas vezes são apenas tentativa de profundidade.
Verbos e imagens viciadas
Alguns padrões se repetem:
- Florescer substitui qualquer ideia de crescimento.
- Devolver aparece mesmo quando não há nada a ser devolvido.
- Arder, mergulhar e revelar surgem como atalhos poéticos.
- Tudo vira luz e sombra, mesmo sem relação com o tema.
Esses recursos até funcionam ocasionalmente, mas o uso constante cria desgaste.
Paradoxos automáticos
O modo inspirado adora oposições:
- É no perder que se ganha
- A ausência também é presença
- O vazio é fértil
Nem sempre essas frases dialogam com o texto. Muitas vezes aparecem apenas porque “soam profundas”.
Vagueza como falsa profundidade
Outro traço marcante é a pontuação suspensa:
“Há algo de…”
Há algo de eterno. Há algo de silencioso. Há algo de simples.
Nada se define. Tudo fica no ar, como se a indefinição fosse sinal de sofisticação.
O vocabulário etéreo e o excesso de imagens
Palavras como “tênue”, “sutil”, “fugidia”, “invisível” aparecem com frequência. O mesmo vale para sementes, essência, espelhos, reflexos e temporalidade circular.
O texto se enche de imagens, mas perde precisão.
Fechamentos moralizantes e fórmulas repetidas
Depois de longos parágrafos, surge a lição final:
“No fim, é tudo sobre ser.”
“No fundo, é simples.”
Além disso, há a estrutura explicativa repetida:
“Porque não é isso, é aquilo.”
Sempre com três elementos. Nunca dois. Nunca quatro.
Conclusão
O ChatGPT, como qualquer escritor, tem manias linguísticas. O problema não é a existência delas, mas o uso automático e acrítico.
Reconhecer esses padrões é essencial para revisar textos, recuperar objetividade e assumir responsabilidade pelo que se escreve — especialmente quando se trabalha com língua, estilo e clareza.



