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Giuliano Finetto27/12/2025 22:41
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Manias linguísticas do ChatGPT no “modo inspirado”

  • #ChatGPT
  • #IA Generativa

Introdução

Quem trabalha com texto já se deparou com um tipo específico de escrita que tenta parecer profunda o tempo todo. Metáforas repetidas, paradoxos forçados e conclusões moralizantes. Esse padrão aparece com frequência em textos gerados por inteligência artificial, especialmente no chamado modo inspirado.

A seguir, estão algumas das manias linguísticas mais recorrentes.

O culto ao silêncio e ao ruído

O silêncio aparece como amuleto de introspecção: silêncio, silencioso, silenciar. Ele “fala”, “grita” e “diz mais que palavras”. O problema não é o uso pontual, mas o excesso, que torna o recurso cansativo.

Logo surge o antagonista: o ruído. Não como barulho real, mas como metáfora para tudo o que não importa. O que sobra vira ruído. O que não cabe na resposta é descartado.

Quando a metáfora funciona — e quando não

A comparação com o poema Profundamente, de Manuel Bandeira, mostra a diferença. No poema, silêncio e ruído fazem sentido, estão integrados ao contexto e à emoção. Não são enfeite. Não são forçados.

No texto artificial, muitas vezes são apenas tentativa de profundidade.

Verbos e imagens viciadas

Alguns padrões se repetem:

  • Florescer substitui qualquer ideia de crescimento.
  • Devolver aparece mesmo quando não há nada a ser devolvido.
  • Arder, mergulhar e revelar surgem como atalhos poéticos.
  • Tudo vira luz e sombra, mesmo sem relação com o tema.

Esses recursos até funcionam ocasionalmente, mas o uso constante cria desgaste.

Paradoxos automáticos

O modo inspirado adora oposições:

  • É no perder que se ganha
  • A ausência também é presença
  • O vazio é fértil

Nem sempre essas frases dialogam com o texto. Muitas vezes aparecem apenas porque “soam profundas”.

Vagueza como falsa profundidade

Outro traço marcante é a pontuação suspensa:

“Há algo de…”

Há algo de eterno. Há algo de silencioso. Há algo de simples.

Nada se define. Tudo fica no ar, como se a indefinição fosse sinal de sofisticação.

O vocabulário etéreo e o excesso de imagens

Palavras como “tênue”, “sutil”, “fugidia”, “invisível” aparecem com frequência. O mesmo vale para sementes, essência, espelhos, reflexos e temporalidade circular.

O texto se enche de imagens, mas perde precisão.

Fechamentos moralizantes e fórmulas repetidas

Depois de longos parágrafos, surge a lição final:

“No fim, é tudo sobre ser.”

“No fundo, é simples.”

Além disso, há a estrutura explicativa repetida:

“Porque não é isso, é aquilo.”

Sempre com três elementos. Nunca dois. Nunca quatro.

Conclusão

O ChatGPT, como qualquer escritor, tem manias linguísticas. O problema não é a existência delas, mas o uso automático e acrítico.

Reconhecer esses padrões é essencial para revisar textos, recuperar objetividade e assumir responsabilidade pelo que se escreve — especialmente quando se trabalha com língua, estilo e clareza.

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