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Ana Cortez
Ana Cortez10/03/2026 00:10
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8M - O homem só foi à lua por causa de uma mulher

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    O homem só foi à lua por causa de uma mulher. A cientista da computação Margaret Heafield Hamilton encabeçou o desenvolvimento do software de voo usado no projeto Apollo 11, em 1969. A história da computação, aliás, é marcada por vastas contribuições de grandes mulheres. O primeiro algoritmo para computador na história, inclusive, foi desenvolvido por uma mulher, Ada Lovelace. Mas são os nomes masculinos que primeiro vem à mente das pessoas quando se fala em profissionais de sucesso no mercado de tecnologia, como Steve Jobs, Bill Gates e Mark Zuckerberg.

    O mercado de TI nem sempre foi dominado por homens. A primeira turma do Bacharelado em Ciências da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, formada em 1974, era composta por uma grande maioria feminina: de 20 alunos, 14 eram mulheres (70%). Hoje, elas ocupam bem menos cadeiras nas salas de aula de TI e, consequentemente, nas empresas do segmento.

    De acordo com levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), dos mais de 580 mil profissionais que atuam no segmento de tecnologia no Brasil, apenas 20% são mulheres. Mas isso não é exclusividade da cultura verde-amarela. Nos Estados Unidos, por exemplo, pesquisas apontam que 25% dos trabalhadores de TI são mulheres.

    As dificuldades que elas enfrentam no mercado são inúmeras. A começar pela formação. A criação pautada em gênero resulta em incentivar desde muito cedo uma espécie de determinismo profissional – que não apresenta nenhum respaldo na ciência, inclusive. Enquanto as meninas brincam de cuidar dos outros, os meninos constroem edificações de blocos e se divertem com jogos que estimulam o raciocínio lógico matemático.

    Quando crescem e buscam espaço no segmento de tecnologia, as mulheres sofrem preconceito em sala de aula – o que leva muitas a desistirem do curso. Dados da PNAD revelam que 79% delas abandonam a faculdade ainda no primeiro ano (de um universo de apenas 15% de alunAs em cursos relacionados a carreiras de TI). As que persistem e terminam a graduação também enfrentam preconceito nas empresas, sofrendo de machismo a assédio diariamente - e ganham, em média 34% menos que seus colegas do sexo masculino.

    As consequências de termos menos mulheres estudando tecnologia se refletem também na produção científica dos dias de hoje. Segundo relatório do CNPQ, apenas um terço dos estudantes de pós-graduação em carreiras de Exatas são mulheres. Também respingam na autoestima delas. De acordo com pesquisa da Codenation, 55,7% das mulheres que trabalham com programação não se sentem tecnicamente preparadas, ainda que sejam altamente qualificadas.

    Mas como reverter este cenário e abrir mais espaço para elas no mercado? O que as empresas e a sociedade podem fazer para que cada vez mais mulheres se sintam motivadas a buscar carreira em tecnologia?

    Diversas iniciativas começam a ganhar força. Grupos independentes de desenvolvedoras, como AI Girls, Java Girls, She Sharps, PyLadies, PrograMaria, Elas Programam e muitas outras buscam disseminar conhecimento de programação e oferecer apoio às mulheres que buscam carreira em TI. Projetos como Laboratoria, Womakers e Reprograma oferecem bootcamps gratuitos só para elas, incentivando a inserção feminina no mercado. E as empresas também têm buscado preencher os seus quadros com mais mulheres, oferecendo programas de seleção de talentos e treinamentos focados exclusivamente no público feminino.

    É papel também das escolas e universidades conscientizar o mercado da importância das mulheres em tecnologia. Universidades têm incentivado a formação de grupos de estudo femininos em programação, como a UFSCar, que tem equipe de mulheres dedicadas ao aprendizado e ao ensino gratuito de Python, por exemplo.

    Ainda temos muito o que percorrer, claro, para trazer mais igualdade de direitos e oportunidades às mulheres no mercado. E seria impossível imaginar a sociedade contemporânea sem a contribuição das mulheres responsáveis por tantos algoritmos disruptivos, desde o software que viabilizou a primeira expedição à lua, o sistema móvel de telefonia (Hedy Lamarr) e o algoritmo que permitiu ao mundo conhecer, no ano passado, a primeira imagem de um buraco negro – código de autoria de Katie Bouman (foto).

    A lista de contribuições femininas é imensa, ainda que a historiografia tenha, por séculos, priorizado o protagonismo masculino nas ciências. A sociedade precisa reconhecer a importância das mulheres e incentivá-las a continuar revolucionando a história da humanidade.

    Texto original no meu perfil do Linkedin: https://www.linkedin.com/pulse/por-mais-mulheres-em-ti-ana-carol-cortez

    Legenda da foto: Katie Bouman, pesquisadora que desenvolveu o algoritmo que permitiu ao mundo ver a primeira imagem de um buraco negro

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